sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Por que choramos ante a morte?


Quando observamos, da praia, um veleiro a afastar-se da costa, navegando mar adentro, impelido pela brisa matinal, estamos diante de um espetáculo de beleza rara.

O barco, impulsionado pela força dos ventos, vai ganhando o mar azul e nos parece cada vez menor.

Não demora muito e só podemos contemplar um pequeno ponto branco na linha remota e indecisa, onde o mar e o céu se encontram.

Quem observa o veleiro sumir na linha do horizonte, certamente exclamará: "já se foi".
Terá sumido? Evaporado? Não, certamente.

Apenas o perdemos de vista.

O barco continua do mesmo tamanho e com a mesma capacidade que tinha quando estava próximo de nós.

Continua tão capaz quanto antes de levar ao porto de destino as cargas recebidas.

O veleiro não evaporou, apenas não o podemos mais ver.

Mas ele continua o mesmo. E talvez, no exato instante em que alguém diz: "já se foi", haverá outras vozes, mais além, a afirmar: "lá vem o veleiro"!!!

Assim é a morte.

Quando o veleiro parte, levando a preciosa carga de um amor que nos foi caro, e o vemos sumir na linha que separa o visível do invisível dizemos: "já se foi".
Terá sumido? Evaporado? Não, certamente.

Apenas o perdemos de vista.

O ser que amamos continua o mesmo, suas conquistas persistem dentro do mistério divino.

Nada se perde, a não ser o corpo físico de que não mais necessita.

E é assim que, no mesmo instante em que dizemos: "já se foi", no além, outro alguém dirá : "já está chegando". Chegou ao destino levando consigo as aquisições feitas durante a vida.

Na vida, cada um leva sua carga de vícios e virtudes, de afetos e desafetos, até que se resolva por desfazer-se do que julgar desnecessário.

A vida é feita de partidas e chegadas. De idas e vindas.

E o que para uns parece ser a partida, para outros é a chegada.

Assim, um dia, todos nós partimos como seres imortais que somos, todos nós ao encontro Daquele que nos criou.

Rabino Henry Sobel, no funeral de Mário Covas

5 comentários:

(CARLOS - MENINO BEIJA - FLOR) disse...

A nossa civilização ainda não se acostumou com a "perda" da morte, inclusive eu. Mas esse texto tem tudo a ver,pois se viemos de Deus e estamos voltando para ele. ntão devia ser motivo de alegria. Alguns povos não choram a morte, fazem festas discretas com flores e frutas. parabéns.Beijos

Juliana Paez disse...

Bravo texto!!

Impecável!!

Por mais que seja doloroso a dor da perda, o melhor sempre ficará para sempre.

Parabéns!!

Bjo grande da JU

Juliana Lira disse...

Tô chorona hoje!

Mas esse texto lembrou meu Paizinho.Tenho certeza que Deus abriu os seus braços e disse lá no céu:Já chegou...
E eu que fiquei a ver suas velas sumindo de meu campo de visão só pude esperar que Deus o recebesse bem e o guardasse, até que chegue o meu dia.

Milhões de beijos

Maria Emília disse...

Costumava usar muitas vezes esta figura do barco que parte, no meu trabalho de apoio a pais que perderam filhos. É uma imagem belissima desta viagem que todos temos que fazer. Também há uma outra de alguém que ao escutar a voz que lhe dizia: "Chegou a hora, tens que ir", pediu: "Deixa-me ficar mais um pouco, aqui tenho toda a minha família, os meus filhos, os meus netos, eu não quero ir, não sei para onde vou, tenho medo..." "Lembras-te," continuou a voz, "quando estavas para nascer pediste o mesmo": "Eu estou aqui tão quentinho, tão aconchegadinho, na barriga da minha mãe, deixa-me ficar, eu não quero ir, tenho medo..." e eu disse-te o que te vou dizer agora: "Confia em mim. Vais de certeza para melhor."
Esta história é de Lauro Trevisan.
Um beijinho,
Maria Emília

poeta do inverno. disse...

estas palavras me lembram o quanto nós somos eternos, e a eternidade caminha conosco sempre.