terça-feira, 17 de março de 2009

...a espera do próximo cometa...




ANÁLISE

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perco-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

Fernando Pessoa, 12-1911

2 comentários:

stella disse...

L'ho letto!

Tite disse...

Mais um poema difícil de Fernando Pessoa mas lindo e profundo como todos os seus poemas.

Ainda bem que só me dei conta dele a partir da idade adulta.
Enquanto adolescente todos os seus poemas me pareceram tão densos que mal os compreendia.

Hoje, e depois da chamada de atenção que os Brasileiros fazem, nas telenovelas que exportam, à sua poesia fico admirada como me passou despercebido tanto tempo.

Abraços cara amiga